por carlos arouck
Hoje, a Lava Jato faz parte da vida de cada brasileiro. Pode-se dizer que o combate à corrupção virou uma obsessão nacional depois dessa operação da Polícia Federal. Muito de positivo pode ser colhido: as pessoas passaram a se interessar mais pela política, começaram a manifestar publicamente sua indignação, aprenderam a cobrar das autoridades seus direitos como cidadãos. Para muitos, a Lava Jato representou o início de uma nova era, de mais proatividade do povo brasileiro, de ser possível acreditar no fim da impunidade, de clamar por mobilizações, de apostar na renovação política nas próximas eleições, enfim, de sentir alguma esperança.

Na condição de policial federal, eu não poderia estar mais satisfeito com os resultados alcançados. Ao mesmo tempo, tenho percebido o que eu chamaria de apropriação dos louros conquistados arduamente por parte de indivíduos inescrupulosos, que fingem aplaudir a Lava Jato, ao mesmo tempo em que tentam a todo custo invocar o nome da operação com o objetivo de conseguir adeptos para causas de interesses particulares.

Quando ocorrem situações que são normais em qualquer operação, como por exemplo, a substituição da equipe de investigação original da Polícia Federal, logo se escuta: Querem acabar com a Lava-Jato! (1)  O que isso quer dizer? Que pessoas ligadas ao antigo governo petista desejam gerar um caos político na gestão atual, como medida de retaliação e de vingança, como uma forma de retomada do poder pelos petistas, que nunca conseguiram digerir o impeachment da ex-presidente Dilma.

O diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, continua diretor mesmo já tendo manifestado sua vontade de deixar o cargo. Uma mudança nesse sentido seria vista pela oposição como uma oportunidade de jogar a culpa no presidente interino(2), que seguramente seria acusado de querer acabar com a Lava Jato. Até mesmo quando ocorre uma mudança na equipe de procuradores, inclusive entre aqueles que resolveram fazer uma visita à casa do maior inimigo da Lava Jato (3) (um artista de renome morador da zona sul carioca que humilhou os procuradores que foram visitá-lo), surge a alegação infundada de que a nova Procuradora Geral da República quer acabar com a Lava Jato.

Estas alegações são feitas e plantadas pelas mesmas forças políticas, e seus porta-vozes na grande imprensa, que tentam a minar a força da nova Procuradora Geral, que substituiu o antigo procurador que sempre esteve alinhado a outros interesses. A equipe original da Polícia Federal na Lava Jato foi obrigada recentemente a voltar para Curitiba, depois de meses longe de suas casas. Apesar disso, o que mais ouve-se são acusações de supostas tentativas de se acabar com a Lava Jato. Os petistas e os isentões não descansam.

A Lava Jato foi um marco na história das investigações. O que não significa que podemos deixar que nos ameacem falsamente com sua extinção para nos fazer de reféns e nos manipular. Existem até mesmo grupos que pedem a aprovação de PECs alegando que são garantias para a Lava Jato continuar existindo. Se alguém vier com um discurso do tipo: A Lava-jato corre perigo, fuja! Não se esqueça que, paralelamente, existem outras operações muito importantes para o Brasil.

A Polícia Federal com seus heróis anônimos vem cumprindo o seu papel mesmo com o contingenciamento dos recursos, tanto financeiros como humanos. As demais operações em curso são várias e ocorrem em todo o território brasileiro. Não é só pela Lava Jato que o Brasil vai sendo passado a limpo. O combate à corrupção ocorre em todo território nacional com vários personagens, juízes, procuradores e policiais federais. O juiz Sérgio Moro seguramente, é um destaque, um herói nacional, um nome temido porque, se o pleito de 2018 fosse agora, ele ganharia de qualquer um. Mas não podemos esquecer de outros anônimos que travam diariamente seu bom combate e não podem esmorecer.

A operação contra a corrupção não acabou e nem vai acabar, e alguns dados da própria operação evidenciam isso: o juiz Sérgio Moro já condenou mais de 145 réus e já recolheu aos cofre públicos mais de cinco bilhões de reais. Organismos internacionais, como a OCDE, estão agora pedindo mais investimentos para a Lava- ato, dando a entender que a operação corre o risco de ser extinta por falta de verbas. Para quem a OCDE está fazendo seu lobby? Desconfio que seja para atender demandas ligadas ao governo anterior.

O combate aos crimes cometidos pelas organizações criminosas entrou no circuito internacional de vigilância instalados na estrutura de nosso país, como a ONU e a OEA, e a OCDE, um organismo econômico com sede em Paris no qual o Brasil é apenas um observador. Por que esse interesse repentino pelos investimentos para a operação Lava Jato? Por que não há esse mesmo interesse pela atuação do nosso Judiciário e pelo cumprimento do ato jurisdicional de cada instância da justiça? Por que esses organismos não fiscalizam a atuação do Ministério Público e dos judiciários nessa questão? Tenho refletido sobre essa questão, que preocupa e não deve passar despercebida.

Finalizo citando Visconde Louis de Bonald: A pior das corrupções não é aquela que desafia as leis; mas a que se corrompe a ela própria.

Carlos Henrique Arouck é policial federal, analista político e colaborador do Crítica Nacional. #CriticaNacional #TrueNews

Notas do Editor:
(1) Aqui o autor faz referência às inúmeras notícias falsas e mentirosas que têm sido plantadas desde o ano passado, dando conta de que haveria uma grande articulação no governo para pôr fim à Lava Jato. O blog O Antagonista chegou a anunciar inúmeras vezes o fim da Lava Jato, com a mesma leviandade com que anunciaram durante meses que “Lula vai ser preso amanhã”. Os fatos concretos, e o andamento normal da Lava Jato, desmentiram os plantadores de fake news.

(2) O blog O Antagonista anunciou várias vezes nos últimos meses que o diretor da Polícia Federal estaria para ser demitido por ordem direta do presidente, com a finalidade de colocar um freio na Lava Jato e proteger políticos corruptos de sua base aliada. Em uma uma dessa notas mentirosas, o blog chegou a anunciar que o general Sérgio Westphalen Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, estaria envolvido na articulação para a mudança na direção da Polícia Federal.

(3) O autor refere-se à visita que o procurador Deltan Dallagnol fez ao apartamento de Caetano Veloso, um dos ícones da elite de esquerda do país, defensor de black blocs e de petistas e inimigo declarado da Lava Jato. O encontro foi articulado pelo senador Randolfe Rodrigues da Rede-AP, um dos partidos pelo qual o procurador possivelmente sairá candidato nas próximas eleições, apesar de suas negativas oficiais. O encontro foi politicamente desastroso para a Lava Jato, e foi descrito em detalhes em um artigo em O Globo e no blog O Implicante.


 

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