por emma sarpentier
No início dos anos oitenta, a Venezuela tinha as políticas mais próximas de um mercado livre na América do Sul, e era a nação mais rica em termos relativos de PIB per capita do continente sul-americano. No entanto, alguns anos depois, as políticas socialistas de Hugo Chávez e de seu herdeiro Nicolás Maduro transformaram o país e levaram o povo venezuelano a uma miséria absoluta.

Um dos países mais ricos do mundo, que deveria ter o padrão de vida da Suécia ou da Suíça, sofre exibindo taxas de sobrevivência equivalente àquelas dos países africanos mais empobrecidos: a pobreza afeta 83% de nossa população e temos a maior taxa de inflação no mundo, que este ano já encontra-se superior a 720%. A fome e a escassez de todo tipo de produto são generalizadas, começando por alimentos e medicamentos, e incluindo papel moeda e terminando com papel higiênico.

O regime de ditadura decide quem come e quem não come
Apenas a nomenclatura chavista, a élite política chamada de oposição e alguns generais do exército associados às principais operações de tráfico de drogas, podem comprar alimentos, remédios, peças para carros, roupas, a preços de ouro, no mercado negro. As pessoas comuns, entretanto, vêem seu padrão de vida cair dia a dia, pois fomos totalmente empobrecidos. Este é o resultado da Revolução Socialista Bolivariana, liderada pelo falecido Hugo Chávez, cujos herdeiros ficaram multimilionários.

Há poucos dias o FMI anunciou que nossa inflação poderá alcançar 1.600% ao ano. Os exemplos dados em números são estarrecedores: a mesma quantia usada para comprar um há alguns meses, hoje é usada para comprar um caixa de ovos. O salário de um venezuelano, por hora, é equivalente ao preço de um ovo. Ou seja, trabalha um dia inteiro em troca de oito ovos. O regime detém o monopólio do comércio de alimentos. Para comprar apenas um pão, além de ser necessário aguardar em um fila a partir das quatro horas da manhã, somos também obrigado a apresentar uma Carta de Residência fornecida pelo regime comunista. Ou seja, somos tratados como estrangeiros ou ilegais em nosso próprio país.

Regimes de ditadura como o de Castro em Cuba ou o de Chávez na Venezuela, concentram todo o poder na elite socialista que governa. As instituições que protegem as pessoas, particularmente o sistema legal, estão sujeitas ao governo, quando não são completamente destruídas. A economia é nacionalizada e politizada.

Nossa tragédia não acaba na economia: as ameaças e perseguições sistemáticas aos adversários da ditadura se estendem a nossas famílias, que perdem seus empregos, são discriminadas no racionamento de alimentos e tornam-se vítimas de expropriações. No regime de narco-ditadura venezuelana, as práticas de tortura contra seus oponentes são aplicadas há anos, incluem choques elétricos, asfixia com gás, estupro com varas ou com rifles, detenções arbitrárias e invasão e destruição das casas dos suspeitos dissidentes.

Em meio a esse cenário desolador, formou-se um verdadeiro êxodo venezuelano. É difícil saber os números exatos, mas estima-se que pelo menos dois milhões de venezuelanos saíram do país devido a insegurança, a miséria, o terror, a fome, a falta de liberdade e a perspectiva de que tudo só piorará, e espalharam-se pela mundo em busca de melhores condições de vida, ou pelo menos de liberdade.

Não há precedentes na história da América Latina de um país no qual a demagogia estatista e coletivista tenha produzido tanta destruição econômica e social como ocorreu na Venezuela. O que é extraordinário, o incomum é que o modelo cubano-venezuelano, essa política de destruir empresas privadas, ampliando o setor público de maneira gigantesca e colocando cada vez mais obstáculos ao investimento estrangeiro é aplicado em praticamente todos os países da região. A menos que o regime chavista sofra uma implosão a partir de suas próprias fileiras, é improvável que o país venha a recuperar sua liberdade pacificamente.

Emma Sarpentier é Coordenadora do Movimento de Resistência Rumbo Libertad e colaboradora do Crítica Nacional em Caracas. Edição de texto: Paulo Eneas.
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