por paulo eneas
Uma ideologia é um elemento justificador para o projeto de poder de um movimento político de caráter autoritário. Ainda que conceitualmente uma ideologia demande uma unidade e uma coerência lógica interna entre os elementos teóricos que a compõem, o mesmo não se diz de um movimento político revolucionário, cuja unidade se dá na ação em vista de um objetivo de poder, e não na consistência e coerência teórica ao longo do tempo do elemento justificador desse movimento.

Ao longo de seus quase dois séculos de existência, o movimento revolucionário valeu-se de distintas ideologias, inclusive aquelas que apresentam contradições teóricas entre si, a começar pela própria noção de classe revolucionária. Enquanto o marxismo clássico falava no proletariado como classe revolucionária, os revolucionários pós-Escola de Frankfurt passam a dizer que é o próprio movimento revolucionário quem cria a classe revolucionária.

Uma vez que a função da ideologia não é dar unidade ao movimento revolucionário, pois essa unidade se dá no curso da ação política revolucionária, mas sim justificar a ação de seus agentes, a adoção dessa ou daquela ideologia como elemento justificador para a causa revolucionária torna-se unicamente uma questão de escolha ditada pelas  circunstâncias históricas e conveniências políticas e de construção de narrativas.

É nesse sentido que se pode afirmar que o comunismo não é uma ideologia. Pois para qualquer meio escolhido em determinado momento histórico para a conquista do poder, o movimento comunista irá valer-se da ideologia que melhor justifique suas ações. É nesse sentido, e somente nesse sentido de justificação das ações de seus agentes, que o movimento comunista pode ser chamado de movimento ideológico.

Ele é ideológico não porque uma ideologia consistente e doutrinariamente coerente o define num sentido ontológico. Mas é ideológico por valer-se de uma ideologia, qualquer, para justificar as ações de seus agentes. É a ausência dessa compreensão que leva muitos analistas a cometer o erro primário de confundir o abandono de uma ideologia, ou da faceta de uma ideologia, por parte do movimento comunista com a derrocada do próprio movimento.

O exemplo histórico mais recente dessa incompreensão foi acreditar que abandono da ideia da estatização dos meios de produção significou o fim do projeto de poder do movimento comunista internacional. Esse erro ficou patente aqui no Brasil em anos recentes, quando analistas da grande imprensa e da academia afirmavam que o PT não era nem é um partido comunista por não propugnar em seu programa a estatização da economia.

Um erro que obliterou o fato objetivo de o petismo ter representado, e de ainda representar, o que até hoje constituiu-se no mais vigoroso e poderoso avanço do movimento comunista em nosso País. Poderoso o bastante para ter chegado à Presidência da República, ter aparelhado todas as instituições do Estado, especialmente o judiciário, e ter fomentado e financiado regimes de ditadura comunista em todo o mundo.

Cumpre por fim lembrar que o comunismo é antes de tudo um movimento político, movido e motivado pela mentalidade revolucionária e que, em cerca de dois séculos forjou uma sólida tradição histórica de organização e de meios de ação. Um movimento ancorado no objetivo da conquista do poder por qualquer meio, eleitoral democrático ou via luta armada ou via guerra cultural, visando instituir um regime autoritário concentrador do poder político e econômico.

Para esse regime autoritário, objetivo último e não declarado do movimento comunista, pouco em sua estrutura de poder a quem venha pertencer os meios de produção, pois a propriedade nominal em um Estado autoritário é irrelevante: importa é exercer o controle pleno e centralizado do poder em todas as esferas da vida social e privada, o que inclui a supressão de todas as liberdades e de toda e qualquer contestação ao regime.

Nesse sentido, o modelo chinês hoje resume à perfeição a natureza última do comunismo. Por essa razão, platitudes repetidas à exaustão por analistas da grande mídia como a de que o comunista representa “uma ideologia morta” ou de que “já provou-se ser um fracasso”, são a expressão mais acabada de uma ignorância ímpar a respeito da real natureza do comunismo e do movimento revolucionário. #CriticaNacional #TrueNews #RealNews