por paulo eneas
Houve uma época em que o jornalismo investigativo era feito por profissionais sérios que empenhavam-se em tratar de temas de real interesse público, conferindo a esta modalidade de jornalismo uma justa e devida credibilidade. Exemplos clássicos de jornalismo investigativo são o caso Watergate de 1972 que, conduzido pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post, resultou dois anos depois na queda do então presidente do Estados Unidos, Richard Nixon.

Mais recentemente tivemos um exemplo trágico de jornalismo investigativo sério no Brasil: Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, o nome completo de Tim Lopes, jornalista das Organizações Globo, foi cruelmente torturado e morto em junho de 2002 por traficantes dos Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, enquanto conduzia uma reportagem investigativa a respeito das atividades do crime organizado.

No entanto, a memória de Tim Lopes e as lições do Caso Watergate têm sido diariamente aviltadas por uma nova geração de jornalistas que reduziram a investigação jornalística a um apanhado de opiniões e clipping de mensagens vazadas de WhatsApp. Publicações que hoje apresentam-se como de jornalismo investigativo não se distinguem muito de revistas de amenidades como Amiga ou Contigo. A Revista Crusoé hoje toma o lugar, na internet, desses dois ícones do jornalismo de fofocas que estampavam bancas de jornal em anos idos.

O padrão de jornalismo investigativo conduzido pela Revista Crusoé, pertencente ao grupo Antagonista/Empiricus Research,  sugere desconfiarmos que a chefia de reportagens foi entregue a um novo Nelson Rubens, que vê na fofoca e no ti-ti-ti das redes e grupos de zap a mesma relevância que têm uma investigação de atividades do crime organizado ou um escândalo de contra-espionagem na Casa Branca.

A revista publicou hoje (11/10) em tom de alarde uma extensa matéria pretensamente “investigativa” informando de uma reunião de lideranças de grupos de direita e apoiadores do Presidente Bolsonaro, ocorrida em abril desse ano em São Paulo (SP). O jornalista que assina a matéria, Felipe Moura Brasil, não se preocupou em ouvir as pessoas por ele mencionadas na reportagem, como manda a boa prática jornalística.

Dentre os participantes da reunião, que foi um encontro privado em um fim de semana, estavam youtubers como Paula Marisa, dirigentes de movimentos conservadores e de direita como Edson Salomão, Pietro Dicenzo, Tatiana Sca, Camila Abdo, Ted Martins, Alex Melo, Carla do Vale, líderes de grupos de outros estados, além do editor do Crítica Nacional, Paulo Eneas, e o empresário e ativista e também colaborador e membro do conselho editorial deste jornal, Otávio Fakhoury.

O conteúdo da reportagem, assinada por Felipe Moura Brasil, beira ao patético devido às ilações apresentadas, evidenciando que Felipe Moura Brasil não aprendeu o be-a-bá das práticas elementares de jornalismos investigativo, pois:

a) Sugere que a reunião tenha sido secreta, o que obviamente é uma sandice, uma vez que o próprio Crítica Nacional publicou matéria no dia 09/04 intitulada Movimentos de Direita de Todo o País Articulam Apoio à Agenda Conservadora de Jair Bolsonaro, relatando a reunião e as discussões que foram travadas. Houvesse o diretor de jornalismo da Jovem Pan feito um trabalho correto de investigação jornalística, não rotularia o encontro como sendo secreto.

b) A matéria da Crusoé/Amiga/Contigo também publicou alguns áudios em que um dos organizadores tratam da organização do encontro. Em dos áudios, o caráter informal e não sigiloso do encontro ficou evidenciado pelo afirmação irônica feita por Otávio Fakhoury a respeito de uma “central de conspiração”.

c) Não estivesse Felipe Moura Brasil sofrendo de surtos episódicos de analfabetismo funcional, tamanho seu esforço de combater a direita raiz que historicamente apoiou e apoia o projeto político representado pelo Presidente Bolsonaro, ele teria tido discernimento para perceber o tom sarcástico e irônico da menção à “central de conspiração”, uma vez que ninguém anuncia a natureza de sua atividade conspiratória.

d) A menção leviana e mentirosa feita por Felipe Moura Brasil quanto ao uso de recursos públicos no evento receberá de nós o tratamento em separado pelas vias apropriadas. Por ora, fica aqui o desafio ao diretor de jornalismo da Jovem Pan para mostrar evidências do emprego de um único centavo sequer de recursos públicos na organização e realização do evento. A não ser que o jornalista seja desonesto o bastante com seu público para considerar uso de dinheiro público a participação, em um evento privado de fim de semana, de convidados que exercem cargos públicos.

A reportagem “investigativa” da Crusoé é o retrato mais acabado de um pseudo-jornalismo investigativo que, sem um objeto de investigação definido e pautado unicamente pela intenção de promover guerra política, reduziu-se a um clipping de mensagens vazadas de aplicativos de conversas privadas, o que coloca a revista no mesmo patamar ético do The Intercept.

E o fato de o jornalista Carlos Andreazza, um analista político que detém o recorde e a façanha de nunca ter acertado nenhuma de suas análises, ter rotulado a matéria da Crusoé de reportagem do ano, constitui-se no que pode ser chamado de um abraço de afogados. Pois nada como um  “selo Andreazza” de qualidade para mostrar que o jornalismo investigativo de uma publicação está no mesmo nível das fofocas de uma Revista Amiga ou Contigo. #CriticaNacional #TrueNews #RealNews

Abaixo, capa do artigo de 09/04 do Crítica Nacional onde fizemos a reportagem sobre a reunião ocorrida no fim de semana anterior. Reunião essa que a Crusoé “revelou” em sua pseudo-reportagem investigativa como tendo sido secreta. 


<font color=#ffffff>Revista Crusoé: O Jornalismo Investigativo Reduzido À Fofoca de Grupos de WhatsApp</font>

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Deixe um comentário