por evandro pontes

Amigo Allan,

Aceitei o convite do Crítica Nacional para me tornar parte do time permanente de articulistas e resolvi, de forma mais direta, elaborar esta coluna de estreia debatendo sobre o papel do verdadeiro jornalista e, assim, dividir contigo alguns pensamentos.

Lia esses dias, de forma despretensiosa, a obra de Santo Ambrosio, doutor da Igreja e um dos únicos a tratar de maneira profunda sobre as Virtudes Cardinais e, com precisão, sobre a Fortitude (qual seja, a coragem).

Lembrava Santo Ambrosio, no Capítulo XXXIII do seu De Oficiis, em referência a Hebreus 11-33,34, que a verdadeira coragem é aquela que “por meio da fé vence reinos, pratica a justiça, cumpre promessas e fecha a boca de leões”.

Vi, amigo Allan, na sua ousadia bem argumentada de não comparecer ao chamado de hienas (antes fossem leões…) esta exata passagem de Santo Ambrosio lembrando a Epístola aos Hebreus de Santo Paulo.

Não vá!

Mil vezes te convoquem nessas condições, mil e uma responda a eles no mesmo tom!

Sim, eu estou contigo nessa empreitada.

E veja – não é de hoje.

Meses atrás franqueei entrevista à amiga Ana Paula Henkel sobre a situação drástica que essa corte marota estava metendo o país. Declarei a ela na entrevista: “Não vivemos mais um estado de normalidade democrática depois que a atividade criminosa de espionagem passou a ser não só aceita, mas sobretudo motivação e fundamento para se perseguir autoridades, cuja função é investigar crimes”.

Isso foi lá em agosto do ano passado.

Desde então as coisas só pioraram e não apenas as autoridades, mas também os jornalistas e os cidadãos comuns passaram a ser alvo dessa “Stasi Togada”.

Ao ser questionado sobre a melhor forma de resolver isso, respondi: “E quanto às ordens emanadas por esse núcleo paraestatal, obviamente as pessoas devem ignorá-la, da mesma forma que ignorariam um palhaço de circo que se veste de policial para multar motoristas que estejam dirigindo de janela aberta ou parando no sinal vermelho. Ordens absurdas não se cumprem. Elas devem ser ignoradas e isso não é desodebidência – é o inverso: é obedecer a lei e ignorar quem a infringe”.

Eis que, passado um tempo, vejo você, amigo Allan, diante dessa pantomima agindo de maneira lúcida, correta e sobretudo corajosa, como lembra Santo Ambrosio.

E aqui fechamos o contraponto – é esse mesmo o papel do jornalista e não outro: é o de criticar o ímpio, o injusto, o ignóbil, o rude, o grosseiro, o caricato e o filho da puta. Não é, em três linhas, fazer manchete “clique bait” para chacotar governo cristalino e honesto e deixar passar governador que compra imprensa chapa-branca e engrossa o exército de Iscariotes atrás dos microfones.

Vejo hoje em você, Allan dos Santos, uma característica que falta a inúmeros dos demais jornalistas – a coragem! Você não tem medo de errar e por isso acerta mais que os demais. E é disso que precisamos: de alguém que enfrente os fatos de maneira destemida.

O Crítica Nacional já lhe franqueou apoio – o meu, perto do veículo, é um quase-nada.

Mas mesmo assim, faço questão de abrir minha coluna endossando a linha editorial deste Crítica Nacional e reiterando, amigo Allan, que, pessoalmente, estou com você – ordens ilegais não são ordens, são arbitrariedades: e diante de arbitrariedades, os homens sérios tem o dever de agir como você agiu.

Conte comigo!

Um grande abraço,

Evandro Pontes.


 

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