por paulo eneas
Um experimento clínico com suspeitas de características criminosas foi levado a cabo na cidade de Manuas (AM) pela Fundação Osvaldo Cruz, Fiocruz, e pela Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas. O estudo clínico foi chefiado por Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, que é coordenador do Instituto de Pesquisa Clínica Carlos Borborema, em Manaus (AM) e consultor eventual da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O experimento consistiu na administração de altas doses de cloroquina em parte de um grupo de 81 pacientes em estágio avançado da doença do COVID-19, com o objetivo de analisar arritmias cardíacas. O estudo não tinha como objetivo testar a cloroquina para a doença do COVID-19, mas analisar seus efeitos adversos. No decorrer do estudo 11 (onze) pacientes morreram.

A pesquisa foi publicada no site medRxiv, um repositório de pré-prints de artigos científicos da área médica ainda não revisados por pares. Segundo o relatório do estudo, entre os pacientes que serviram como cobaia estavam pessoas que não tinham ainda confirmação de exame laboratorial para COVID-19.

Durante o estudo, os pacientes receberam doses elevadas de 600 mg da droga duas vezes ao dia, durante 10 dias, juntamente com o antibiótico azitromicina. Uma vez que o estudo visava estudar efeitos colaterais, e não a eficácia do medicamento, não for criado braço de grupo de controle por placebo.

No relatório publicado, os pesquisadores chegaram à “conclusão” de que a cloroquina usada em altas doses para pacientes de COVID-19 “pode ser tóxica”, ignorando o fato já largamente conhecido pela medicina e pela farmacologia de que qualquer medicamento em altas doses pode ser fatal.

Também foram aplicadas doses de 1200mg e de 900mg do difosfato de cloroquina durante cinco dias, uma dosagem três vezes superior à recomendada. Atualmente, a prática largamente adotada por médicos do Brasil e do exterior é de administrar 200mg de hidroxicloroquina por até cinco dias. Após a morte de 11 pacientes, o estudo foi interrompido.

Conclusões disparatadas e enviesadas
Ainda na parte das conclusões, o relatório fala da necessidade de “mais estudos” sobre o uso da cloroquina, e antecipam que o medicamento traz riscos e não é eficaz no tratamento da COVID-19.

Trata-se de uma afirmação temerária que não especifica a dosagem de risco, justamente aquela usada no estudo, e não faz menção ao momento da entrada do medicamento em relação à evolução da doença, ignorando portanto os experimentos bem-sucedidos de entrada precoce, como aqueles realizados pela rede da Prevent Senior e por outros médicos no exterior.

A publicação destas “conclusões” sobre os riscos de efeitos colaterais fatais e da suposta ineficácia da cloroquina ganhou ampla repercussão nas redes sociais, principalmente junto a figuras públicas do meio político e jornalístico que apostam contra uma perspectiva de curto prazo para derrotar o vírus e salvar vidas.

Responsabilidade criminal
É preciso que o Ministério Público e a Polícia Federal abram investigação sobre o ocorrido com esse estudo de Manaus. O fato de 11 pessoas terem morrido em um grupo de 81 pacientes de um estudo que tinha como objetivo justamente analisar as reações adversas de um medicamento não pode ser vista com “naturalidade”.

Se o objetivo do estudo era analisar as reações adversas, a primeira medida de segurança que deveria ter sido tomada era assegurar que estas reações adversas induzidas pelas altas dosagens aplicadas não atingissem o nível de fatalidade. E elas atingiram onze vezes!

Em nosso entender houve irresponsabilidade, com consequências criminais, na elaboração do desenho clínico e na preparação dos protocolos de procedimento e de segurança para este estudo, e os responsáveis precisam responder penalmente na forma da lei. O pré-print do estudo no medRxiv por ser acessado nesse link aqui. Com informações dos sites Conexão Política e Estudos Nacionais.

Nota:
Entramos em contato com a Dra. Ludhmila Hajjar, que em entrevista concedida ontem (14/04) ao Jornal Crítica Nacional fez menção a este estudo de Manaus. Em sua resposta para a nossa reportagem a médica afirmou o seguinte:

“Fui convidada para revisar o estudo na área específica de minha especialidade, que é cardiologia. Esta revisão consistiria na análise dos eletrocardiogramas dos pacientes. Eu não participei formalmente do estudo nem de seu desenho clínico e elaboração de protocolos. No entanto, até o momento, não recebi nenhum material para fazer esta análise.”