por evandro pontes
Desde o momento em que o ex-Ministro Moro fez o anúncio de seu pedido de demissão, fui o primeiro a colocar a história em “banho maria” para aguardar o depoimento de uma figura chave nesse imbroglio: o delegado Valeixo. Na tarde desta segunda-feira (11/05) o delegado Valeixo prestou na sede da PF um extenso depoimento que deixou a situação do ex-Ministro Moro bastante complicada.

Recuemos no tempo e rememoremos os fatos: o ex-Ministro manifestou seu desejo de desembarcar do governo e assim o fez. Tinha dois caminhos: fazer o que fez ou sair como uma cavalheiro. Se tivesse optado pela última alternativa, não teria convocado a tal coletiva, não teria feito discurso, não teria feito cartinha de demissão – ele simplesmente comunicaria o desejo de se desligar do cargo por razões pessoais. É assim que se faz na iniciativa privada. É assim que se faz em qualquer lugar do mundo.

Você comunica o seu desligamento verbalmente, sai discretamente, agradece à sua equipe pelo trabalho desempenhado e vai cuidar da sua vida sem sair falando mal do ex-patrão, exceto se alguma ilegalidade foi cometida, cuja porta da rua se abre ao mesmo tempo em que se abre a da Justiça do Trabalho. Repito: é a porta da Justiça que se abre e não a da Rede Globo. Não foi essa a estratégia adotada pelo ex-Ministro.

Ele resolveu se desligar convocando a imprensa, gerando tumulto no mercado de capitais, criando um périplo de especulações, alimentando audiência para a Rede Globo, ajudando a Veja a vender exemplares e, last but not least, colocando a figura do Presidente da República em situação incômoda e sob especulações levianas.

Seu principal argumento? O de que o presidente estava a interferir nos trabalhos da Polícia Federal para atender interesses próprios e da família. O STF aceitou comprar a narrativa e o Ministro Celso de Mello assanhou-se em velocidade incomum: pediu que se colhesse o depoimento do ex-Ministro do jeito mais gostoso e confortável possível para o biografado de Joice Hasselmann. O depoimento terminou literalmente em pizza.

Deixou com os peritos da PF o seu aparelho celular, aquele mesmo que fora interceptado pela turma do Glenn Greenwald em uma matéria criminosa, que supostamente acusava o ex-Ministro, na função de juiz, de fazer o que ele, Moro, estava acusando o Presidente de tentar: interferir em investigações.

Fora o seu próprio aplicativo de mensagens o ex-Ministro não tinha nada a apresentar. Nenhuma prova de rigorosamente nada. Nenhum cheque depositado na conta, nenhuma contrapartida, nenhum quid-pro-quo – nada. A saída do ex-Ministro foi evidentemente envolta em um blefe.

O ex-Ministro blefou, recebeu o call e baixou um 7 de copas. A outra carta que ele tem, com a ajuda e torcida descarada do Ministro Mello é o video da reunião ministerial, um 4 de paus ou menos. Jair jamais, em sã consciência, cometeria uma ilegalidade na frente de “n” ministros, incluindo alguns do DEM.

E ai vem a carta principal do jogo: Valeixo. Valeixo teria sido uma espécie de trinca de reis para Moro. So que não…

Valeixo não apenas desconfirmou tudo o que Moro saiu papagaiando, como confirmou tudo o que Bolsonaro disse na tarde em que Moro se demitiu. Nesse discurso Bolsonaro inova no vernáculo e usa o verbo “escrotizar”: nunca um neologismo foi tão bem empregado – o depoimento de Valeixo combinado com o do ex-Superintendente da PF no RJ não deixam qualquer margem para dúvida: Moro mentiu descaradamente vitimando não o Presidente, mas o país – escrotizou.

Mas, quais consequências temos? Moro teve a opção de sair discretamente, mas foi pelo caminho de uma saída ruidosa, prejudicial ao país, ao mercado, à economia, à estabilidade institucional, à harmonia entre os poderes e tudo isso com base em uma mentira deslavada. Por que um estrategista como Moro faria isso?

Óbvio – é porque o risco da mentira valia mais a pena do que a saída discreta; o prejuízo de uma saída discreta seria muito mais arriscado do que o de uma saída ruidosa, ainda que construída em cima de uma balela infantil. Moro tomou, por incrível que isso possa parecer, o caminho menos arriscado para ele, que incluía nessa estratégia um blefe grosseiro.

Ainda deve surgir nos próximos dias o Royal Flush que fez Moro tomar o risco do blefe e certamente um outro quid-pro-quo (possivelmente com algum membro do STF, que buscava sua cabeça e agora o protege misteriosamente) onde Moro entregaria o Presidente em troca do engavetamento de algo contra ele: eis a premissa hipotética que venho trabalhando – há, com certeza, um conluio entre ex-Ministro Moro e alguns Ministros do STF.

E enquanto toda a verdade envolvendo inquéritos sigilosos no STF, atuação direta do STF contra a Presidência da República e a obscura atuação omissa do ex-Ministro diante de ilegalidades atrozes do STF e de governadores durante a pandemia, de concreto mesmo temos apenas o art. 26 da Lei dos Crimes contra a Segurança Nacional: Caluniar ou difamar o Presidente da República, […] imputando-lhe[s] fato definido como crime ou fato ofensivo à reputação. Pena – reclusão de 1 a 4 anos.

Para isso, o depoimento de Valeixo basta. O que Moro tem a seu favor? Única e exclusivamente o tempo: quanto mais a AGU demorar para agir, pior para o Presidente, melhor para o ex-Ministro.

Esse crime prescreve em 2028. Mas se contarmos com o ritmo próprio do STF, que até hoje não denunciou um político relevante sequer por força do Petrolão, que teve início em 2014 e mantém figuras como Cunha em regime de prisão provisória, mais de 6 anos para se iniciar um processo é fichinha para quem precisa encerrá-lo em menos de 1.

É bom que o Presidente não ache que as coisas vão se resolver naturalmente porque a verdade sempre prevalece ao final – não se esqueça V. Exa. que comunistas operam basicamente com mentiras. É por isso que o sábio Olavo de Carvalho não para de dizer: processe enquanto há tempo.


 

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