por evandro pontes
Confesso que toda neologia que tem “neo” no início da palavra me neoirrita. Mas aqui abro exceção para criar um “novo termo” para designar um “novo fenômeno” para o qual não achei palavra nova que se adeque.

Vamos então de atalhos simplificantes para analisar o que vem ocorrendo nessa “nova onda” de sustentação ao governo Bolsonaro baseada em obras, ajuda de órgãos globalistas e aparições em jornais e na mídia mainstream inimiga do governo.

Colhendo os efeitos dessas iniciativas, vemos vantagens espraiadas para as pessoas que se beneficiaram das aparições e das respectivas iniciativas e, ao invés de um avanço da causa conservadora, o que colhemos foi um grande retrocesso: exílio de Abraham e Arthur Weintraub, tornozeleira para Sara Winter (a quem foi negado o pedido de celebrar casamento religioso), renovação da prisão de Eustáquio, demissão de Lacombe e depoimentos de “investigados” no “inquérito do Fim do Mundo” a pleno vapor.

Isso tudo do “lado de cá”.

Do outro “lado do balcão”, há uma completa hegemonia da linha de governo defendida por Jorge Oliveira, André Mendonça, Generais Braga Netto e Ramos, General Mourão e todos os demais escudeiros de uma visão de Estado “técnica, ponderada, isenta de extremismos, sofisticada, científica” e outros que conformam, “do lado de cá”, com cessão de espaço para pautas globalistas.

Houve uma rápida e profunda viragem do governo Bolsonaro a uma espécie de Positivismo Reloaded 2.0.  Não se trata aqui propriamente de uma fiel aplicação da doutrina de Comte, aclimatada por Benjamin Constant e outros mais importantes e menos conhecidos como Miguel Lemos e Teixeira Mendes.

Não quero aqui também esticar ou trabalhar além da extensão que é permitida sobre as doutrinas do autor do Catecismo Positivista, mas é bom lembrar que para ele, “o social vem antes do moral” e é pelo “progresso que se dá o desenvolvimento da ordem”.

Isso equivale a aceitar o papo furado de que boas obras de engenharia mantêm o povo empregado e ocupado e, portanto, distante das agruras morais – na prática é como usar o asfalto de Tarcísio para combater a criminalidade.

Pouco importa, também, neste momento, os detalhes sobre o conteúdo da obra de Lemos, em especial O Apostolado Positivista no Brasil (esta escrita com a ajuda de Teixeira Mendes) – importa sim entender que esta nova forma de gestão da mais nova ainda equipe de Bolsonaro abandonou o seu plano de governo original de combate ao comunismo e transformou-se, sem timidez, de movimento intelectual e cultural que colocaria Bolsonaro na posição de estadista em um nu e cru apostolado que o reverte em simples gestor de obras.

São obras boas, perenes, úteis e sim – salvadoras. A conclusão da obra de transposição do Rio São Francisco é uma vitória da competência sobre a corrupção. Mas isso é parte de um projeto maior de estado que embutiria ações de governo.

É desagradável ter que lembrar aquele documento, um compromisso por escrito que está sendo abandonado quando jornalistas são presos e pessoas comuns são achacadas pela corte maior do país sem que uma ação de estado seja tomada para interromper esse curso:

• Somos defensores da Liberdade de opinião, informação, imprensa, internet, política e religiosa!

• Liberdade das pessoas e de suas famílias em poderes colher os rumos da vida na contínua busca da felicidade!

• Somos contra qualquer regulação ou controle social da mídia.

• A Liberdade é o caminho da prosperidade. Não permitiremos que o Brasil prossiga no caminho da servidão.

• Nosso povo deve ser livre para pensar, se informar, opinar, escrever e escolher seu futuro.

• Nos últimos 30 anos o marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo, se uniu às oligarquias corruptas para minar os valores da Nação e da família brasileira.

• Queremos um Brasil com todas as cores: verde, amarelo, azul e branco.

Tirado das páginas 7 e 8 da proposta de governo de Jair Bolsonaro, já vimos praticamente quase tudo o que acima está ruir por pura inação do governo: Inquérito do Fim do Mundo, CPMI das Fake News, Lei da Censura na Internet aprovada no Senado, cidadãos procurados pela polícia por apoiar o governo e por ai vai.

O governo Bolsonaro sempre esteve em um dilema de Sofia: abraçar a pauta conservadora para mudar o estado sob risco de colocar o governo debaixo de ataques, ou abraçar uma doutrina positivista que atenda a todos (incluindo e sobretudo os inimigos do Brasil e membros do establishment de sempre) de forma “pragmática”.

De um mês pra cá, o Presidente Bolsonaro optou pela segunda e hoje já empenha distribuição de benesses para todos, deixando claro entretanto que as pautas conservadoras foram para o “fim da fila”.

Nos acostumemos com essa “nova novíssima direita”. Sim, é ainda um governo de direita e o único que temos. Mas sabemos até onde vai a sua capacidade combativa e a sua capacidade conciliatória, vestida de falsa prudência e real covardia.

É a isso que dou o nome de neopositivismo bolsonarista, na falta de palavreado melhor e que não inclua algo chulo ou impróprio para a moral, ainda que, como lembra Comte, deva ela se submeter ao “social”.


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