por evandro pontes
Na linguagem dos lutadores, é comum se ouvir quando se cumprimentam a pronúncia recíproca da interjeição Oss. De origem incerta, sua mais provável etimologia vem do japonês Onegai shimassu, que significa algo como “por favor, dê-me a Honra”. Do longo termo, ainda comum em dojôs de arte marcial tradicional e em academias de Judô mais antigas, teria se formado a corruptela linguística oss.

Todos sabem e podem consultar a volonté minhas divergências políticas em face dos posicionamentos do neocon Rodrigo Constantino. Pessoalmente, não o conheço e por isso, mantenho o respeito inversamente proporcional à distância e, diretamente proporcional no que se refere às posições políticas.

Mas eis que me deparo com um trabalho que, como velho praticante da arte suave, me emocionou. Refiro-me a entrevista que Constantino fez com o Mestre Pedro Valente, aluno do Grão-Mestre Helio Gracie.

Como praticante de Judô há mais de 40 anos e de Brazilian Jiu-jitsu há mais de 10, tive também a síncope ao ler barbaridades, mentiras e aleivosias lançadas contra o Grão-Mestre Hélio, toda família Gracie e seu primoroso legado, por parte de um portal de esquerda, tentando associar a sua imagem ao integralismo, versão tupiniquim do fascismo.

Constantino, na sua função de real jornalista, foi atrás da informação e detectou a farsa, trazendo toda a verdade à tona sobre as ideias políticas do Grão Mestre Helio Gracie. A entrevista pode ser vista íntegra neste link aqui. Mestre Pedro Valente deixa claro duas coisas a respeito do imbroglio: (i) o pensamento do Grão-Mestre Helio e (ii) a intenção da matéria e seus pseudo-pesquisadores.

O Grão-Mestre foi um homem preocupado com o bem-estar espiritual de seus alunos, portanto, de sua auto-estima e sua confiança. Já, o jornalista só se importa com a destruição da reputação de ícone da História do Brasil. Neste pormenor, há um trecho da entrevista em que o Mestre Valente comenta a respeito dos apoiadores da família Bolsonaro entre membros da família Gracie e faz uma advertência totalmente em linha com este Crítica Nacional:

“O nosso enfoque é nos valores. Hoje em dia a política virou time de futebol: ou você concorda com tudo que o Bolsonaro fala, ou você discorda de tudo. Mas quando você tem valores pessoais, baseados em estudo e experiência e que são mais importantes para você do que [ter] um político de estimação, você pode analisar com racionalidade e verificar se concorda com os pontos que ele defende”.

Essa forma de olhar a política com objetividade e baseada nos atos praticados pelo político e nos valores que o analista defende, é tudo o que existe no propósito editorial deste Crítica Nacional, um espécie de jornalismo samurai administrado pela competência de Paulo Eneas. Ao tratar do “emocionalismo”, Mestre Valente lembra exatamente a reação daquela direita que brilhantemente Paulo Eneas cunhou como direita emocionada.

Pois bem – muito longe desse entulho integralista, o Grão Mestre Helio Gracie, ao ensinar valores e cobrar confiança, o fazia por meio de uma arte em que o valor confiança e lealdade é essencial: quando em combate, companheiros de treino se enfrentam com a dureza com que enfrentariam um inimigo mortal e forjam, uns aos outros, seus respectivos espíritos.

Em um dojô de jiu-jitsu “não tem moleza”, assim como em muitos dojôs de Judô – e é necessário ter confiança pois em dado momento, seu companheiro de prática pode “pegá-lo” em um estrangulamento capaz de verdadeiramente ceifar-lhe a vida.

É justamente na confiança ao saber que se você der três toques em qualquer parte do corpo ou do dojô, o seu companheiro interpretará como sinal de desistência e, ato contínuo, sua obrigação como derrotado será curvar-se e abaixar a cabeça para o companheiro de treino que o venceu.

Mas não só – além de vencer, o companheiro de treino lhe deu uma lição: não só de jiu-jitsu mas também de vida. A humildade em reverenciar quem o derrotou é quase que automática aos praticantes de artes marciais.

Insinuar que um homem que viveu toda a sua vida sob esse rigoroso Código de Ética samurai possa ter sido algo análogo, ainda que distante, de um fascismo, é de uma canalhice retumbante e que, graças à intervenção do honesto jornalismo de Constantino, que abriu o microfone para as palavras de saber do Mestre Valente, a canalhice foi interrompida com muita elegância e altivez.

Ao Mestre Valente o meu domô arigatô gozaimashitá, ou, muito obrigado e ao jornalista Constantino o meu Oss!


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