por paulo eneas
A discussão ensejada no final da semana que passou a respeito das relações entre o Governo Bolsonaro e o movimento conservador trouxe também um tema caro ao debate político, e que já havia sido antecipado há no mínimo cinco anos pelo professor Olavo de Carvalho: a direita teria pulado etapas ao eleger um Presidente da República, sem no entanto ter concluído a tarefa de ocupar espaços nas demais esferas de poder da sociedade, como imprensa, meio acadêmico e meio artístico.

Essa diagnóstico é rigorosamente correto e os fatos evidenciam isso: a direita brasileira “pulou etapas” e elegeu um Presidente da República, mas esta mesma direita não está presente no Judiciário, é minúscula no Parlamento, não tem presença na grande mídia, não tem sequer um partido político para chamar de seu, ela inexiste no meio artístico, e continua banida das universidades. Esta condição objetiva estabelece o ground base para compreender o momento histórico que nosso país vive.

Mas em que pese a precisão do diagnóstico, a realidade se impôs: a maioria do povo brasileiro decidiu soberanamente “pular etapas” e eleger um presidente conservador e de direita, e o fez para impedir que o país seguisse o destino trágico dos venezuelanos. O povo também o fez por identificar na agenda conservadora verbalizada pelo então candidato Jair Bolsonaro o reflexo de suas aspirações e anseios.

Portanto, em que pesem as inúmeras dificuldades de governar decorrente destas “etapas puladas”, isso não serve para justificar o abandono ou a colocação em segundo plano desta agenda conservadora, sob que argumento for, incluindo aí o argumento de ter havido etapas puladas.

A suposta ausência de quadros na direita
Procura-se também justificar esse recuo ou essa dificuldade na implementação da agenda conservadora sob o argumento de não haver quadros o bastante na direita para as diversas funções de Estado e de governo. É fato que existe uma preponderância da esquerda no funcionalismo público, mas isso não serve de pretexto.

Primeiro, porque um gestor competente e comprometido com a agenda conservadora do programa de governo aprovado na urnas pode muito bem contornar esta dificuldade com o funcionalismo aparelhado, como já nos mostrou de maneira bastante esclarecedora, por exemplo, pastora Jane Silva, em entrevista concedida ao Crítica Nacional no final de agosto a respeito da suposta obrigatoriedade das emendas parlamentares impositivas. A entrevista pode ser vista mais abaixo.

Em segundo lugar, o que observamos é a ausência de empenho de vários órgãos do governo com a promessa do presidente de promover a despetização do Estado. Pelo contrário, o que assistimos em vários ministérios é o expurgo dos poucos conservadores que ocupavam posições no governo, e sua substituição por pessoas sem qualquer compromisso explícito com a agenda conservadora que elegeu o Presidente Bolsonaro.

Falar em ausência de quadros da direita somente faria sentido se estivessem esgotadas todas as possibilidade de colocação de pessoas conservadoras e de direita, e devidamente qualificadas, na posições-chave da máquina governamental, com o objetivo de implementar a agenda conservadora. Mas o que assistimos concretamente é o contrário: não há empenho algum de diversos órgãos do governo em promover a chamada despetização ou desesquerdização da máquina pública.

Ao contrário, o que assistimos é a boa vontade e a disposição de diversos órgãos em acolher esquerdistas em cargos de confiança, ao mesmo tempo em que há um empenho visível em expurgar da máquina governamental a presença de bolsonaristas históricos e de pessoas que sempre estiveram na linha de frente do movimento conservador brasileiro.



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