por paulo eneas
Em entrevista concedida à edição desta semana da Revista Veja, o ministro da Economia Paulo Guedes revelou detalhes de um plano para a derrubada do presidente Jair Bolsonaro e que envolvia, segundo o ministro, a participação do presidente da Câmara dos Deputados, membros do Tribunal Superior Eleitoral, o governador tucano paulista João Doria, e membros do poder judiciário.

O plano de derrubada do Presidente da República teria sido abortado por conta de uma ação do próprio Paulo Guedes, que teria intercedido para isto junto a ministros da suprema corte. Segundo seu relato na entrevista, o ambiente político teria sido apaziguado com a demissão do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, que foi aceita como uma sinalização positiva por parte do governo em direção à suprema corte.

Obviamente o relato do ministro Paulo Guedes na entrevista à Revista Veja é de uma gravidade sem precedentes do ponto de vista institucional. Do ponto de vista político, o relato descreve uma capitulação e uma rendição sem luta por parte do governo federal ante uma chantagem e uma ameaça que, para todos os efeitos, podem ser configuradas como uma tentativa de Golpe de Estado.

O relato do ministro também descreve muito bem os papeis antagônicos desempenhados por dois personagens centrais nesse episódio: o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, e o próprio ministro Paulo Guedes.

Enquanto Abraham Weintraub encarnava o espírito e o sentimento que foram os combustíveis do movimento político que, contra tudo e contra todos, elegeu Jair Bolsonaro como Presidente da República e, nesse papel, atuava como herói da disposição de lutar o bom combate em defesa do governo e da pauta conservadora aprovada nas urnas, Paulo Guedes colocou-se como o anti-herói da rendição incondicional à chantagem do establishment.

É importante ter em mente que os fatos narrados por Paulo Guedes confirmam denúncia que havia sido feita naquele mesmo período pelo jornalista Allan dos Santos, do Canal Terça Live, que havia denunciado a tentativa de golpe contra o Presidente Bolsonaro envolvendo inclusive o uso de maletas de escuta telefônica em Brasília e a disposição prévia do Tribunal Superior Eleitoral de cassar o mandato do presidente.

Esses fatos também ocorreram no mesmo momento em que havia uma onda crescente de mobilizações populares em Brasília em apoio ao chefe de governo: por várias semanas seguidas em meados deste ano dezenas ou centenas de milhares de pessoas participaram de manifestações massivas em apoio ao governo, mostrando assim o inequívoco apoio da maioria dos brasileiros ao Presidente da República.

O espantalho do impeachment com pretensa justificativa para uma rendição
Diante destes cenário de amplo apoio popular, não fazia sentido algum falar ou temer um impeachment. Pois, além de o presidente não ter cometido nenhum crime de responsabilidade, não haveria ambiente político que viabilizasse esta empreitada golpista: a simples tentativa de instaurar um processo de impeachment fraudulento levaria centenas de milhares de pessoas às ruas em Brasília em apoio ao presidente e contra o impeachment forjado, em uma mobilização política sem precedentes.

No entanto, um erro de leitura política, para dizer o mínimo, fez com que a hipótese de impeachment fosse tomada como crível. E desta forma ela passou a ser usada como espantalho para justificar uma rendição ante à chantagem e o progressivo afastamento do governo da pauta conservadora e de sua base militante, e sua também progressiva adesão ao establishment político.

Uma adesão que ficou evidenciada pelo início de acordos com Centrão, pelos expurgos dos poucos conservadores que estavam no governo, e que culminou com a nomeação de Kassio Nunes para a suprema corte, em decorrência destes acordos políticos, contra as expectativas de toda a base de apoio bolsonarista.

A saída de Abraham Weintraub que, conforme descrito por Paulo Guedes, foi oferecida como sinal de rendição ante à exigência do establishment político, assinalou esta inflexão e recuo do governo. Como decorrência desta inflexão e desta estratégia de recuo e rendição operada por Paulo Guedes, segundo ele mesmo afirma, o que assistimos em seguida foi a progressiva subtração das prerrogativas constitucionais do presidente.

Esta estratégia de rendição desencadeou um processo de fragilização da autoridade do chefe de governo, fragilização essa aprofundou-se em todas as áreas da vida pública, desde as políticas para a pandemia até a instauração de um estado de coisas onde já não existe mais garantia quanto às liberdades e direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

Cumpre também lembrar que, dentre as pessoas que participaram das manifestações de meio de ano em apoio ao governo, muitas foram e estão presas em regime fechado ou prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, outras tiveram bens apreendidos e foram na prática impedidas de exercer sua liberdade de expressão. O governo silenciou-se e não tomou nenhuma ação diante destas flagrantes ilegalidades.

Portanto, se a ação de Paulo Guedes ocorreu nos termos descritos por ele próprio na entrevista, seu resultado não foi o de supostamente “salvar” o governo. Em vez disso, abriu caminho para o fortalecimento das forças políticas e do establishment estatal que a cada dia engessam a fragilizam ainda mais o governo. Sua ação também resultou na desarticulação da base de apoio ao governo na sociedade, uma vez que esta base passou a ser perseguida.

Com o recuo do governo e sua disposição de ceder a chantagens e não mais fazer o enfrentamento ao establishment, a ação também ensejou o ambiente para os ataques crescentes às liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos, e que culminaram na prisão do jornalista Oswaldo Eustáquio e no incidente sofrido por ele na prisão.

Por fim, o recuo do governo descrito por Paulo Guedes e por ele operacionalizado acentuou e fragilizou ainda mais a nossa já frágil democracia, tornando até mesmo questionável dizer que temos hoje uma democracia.


 

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