por paulo eneas
A importância que a esquerda confere aos seus intelectuais na guerra política e cultural pode ser medida por um exercício imaginativo: convidamos o leitor a imaginar se seria concebível que no auge da era petista, com a popularidade de Lula alcançando níveis históricos, a militância petista iria fazer pouco caso ou mesmo considerar descartável sua elite intelectual da USP e alhures.

A resposta é um rotundo não. Mesmo no auge de seu poder e popularidade combinados, sem qualquer força política no horizonte que os ameaçasse no curto prazo, a militância petista jamais considerou descartável a sua elite intelectual. Pelo contrário, esta elite era prestigiada e valorizada, muito mais até do que algumas lideranças políticas do petismo.

Pois, ainda que de modo difuso entre as diversas camadas da militância, sempre houve o entendimento de que aquela elite intelectual esquerdista era a responsável por criar na esfera da cultura e do imaginário as condições para a ascensão do petismo, a principal versão brasileira do movimento comunista naquele momento. Uma ascensão que iniciou-se no campo da opinião pública, até alcançar o exercício do poder político no país.

Figuras como Marilena Chauí, Antônio Cândido, Wladimir Safatle, José Álvaro Moysés, Florestan Fernandes, Marco Aurélio Garcia, Francisco Weffort, Gilberto Carvalho, entre dezenas de outros, eram sempre respeitados por toda a militância petista, a despeito de divergências políticas circunstanciais que haviam, e eram inúmeras, entre estes intelectuais entre si e entre estes e a base militante ou os dirigentes políticos petistas em altos cargos.

Em artigo publicado em julho de 2018 no website da Fundação Perseu Abramo, outro intelectual petista de renome e sempre respeitado pelos petistas, o autor Luiz Dulci, também outro intelectual petista ainda que de menor brilho mas pertencente a mesma constelação, afirmava:

(…) pois os intelectuais tiveram naquele processo [de fundação do PT] um papel muito mais destacado do que se imagina e, sobretudo, o cumpriram de um modo fortemente inovador no que diz respeito à tradição da esquerda. 

(…) [esses intelectuais] haviam, cada um à sua maneira, participado intensamente do combate às ideologias conservadoras e antipopulares, ao chamado “pensamento reacionário”, contribuindo para desmistificar o autoritarismo da vida brasileira e para afirmar valores políticos e morais alternativos (…).

Haviam produzido esplêndidas “descrições críticas” da civilização brasileira e de sua radicalidade estrutural, assentando as bases, mesmo sem pretendê-lo especificamente, para um novo olhar socialista sobre o Brasil.

Sérgio Buarque escrevendo uma história dialética não-economicista; [Antonio] Candido surpreendendo no âmago da criação literária a sua dimensão civil; [Paulo] Freire criando uma pedagogia da autotranscendência coletiva; Marilena [Chauí] escrutinando os fundamentos da democracia radical; [Hélio] Pellegrino polemizando com deus e o diabo sobre o mistério do amor.
(Grifos nossos.
Ref: Os Intelectuais e a criação do PT)

Note-se que o autor do texto, Luis Dulci, foi durante um longo período o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República no Governo Lula e, portanto, homem do establishment político petista.

O fato é que durante a era petista, jamais veríamos ainda que um simples militante de base, um “piqueteiro” (incitador de greves) de porta de fábrica ou carregador de bandeira, cometer a estupidez de apontar o dedo para o nariz de um destes intelectuais e dizer a ele platitudes como “política não se aprende nos livros, mas na prática”, como temos ouvido de parte da incipiente militância de direita nos dias de hoje.

Assim, mesmo já tendo conquistado o poder político, tendo aparelhado todas as instituições do Estado e exercendo a hegemonia completa nas instituições de cultura e nos meios de comunicação, os petistas e todos os comunistas brasileiros jamais desprezaram seus intelectuais. Esta postura não refletia nem reflete nenhuma particularidade especial dos comunistas brasileiros reunidos sob guarda-chuva do petismo: ela faz parte da tradição do movimento revolucionário em todo o mundo.

Desde sua origem há quase dois séculos, o movimento revolucionário caracteriza-se fundamentalmente não por ser um movimento de massas ou apenas uma corrente política convencional no seu sentido estrito, como ensinam os verbetes de enciclopédia sobre ciência política que formam a base de conhecimento de jornalistas e figuras públicas como um Marco Antônio Villa.

O que a direita, e particularmente os conservadores, precisam compreender é que o movimento revolucionário é essencialmente um movimento cultural, que tem nos seus formuladores teóricos e pensadores a força motriz de sua continuidade histórica e de seu senso de unidade quanto aos seus objetivos finais, independentemente de uma pretensa unidade para a ação política imediata. Unidade política esta que, de resto, invariavelmente não existe, a despeito da lenda presente na mente de boa parte da direita nacional.

E por conta desta sua natureza, de ser essencialmente um movimento cultural, que opera e age na esfera da cultura e da formação ou deformação do imaginário e dos valores, o movimento revolucionário jamais irá prescindir de seus intelectuais e formuladores teóricos, estando ou não a esquerda no exercício do poder político.

Da mesma forma, nunca passa pela cabeça de algum militante de base desse movimento acreditar que ele irá “fazer a revolução socialista na prática”, abrindo mão de sua elite intelectual, que é quem de fato perpetua este movimento, tanto no plano teórico quanto no plano da cultura e do imaginário.

Considere-se, por exemplo, o ativismo judicial, uma das mais poderosas ferramentas que o movimento revolucionário criou para levar adiante seu intento. Esse ativismo não existiria sem as contribuições teóricas de um John Rawls ou Ronald Dworkin, para citar dois autores clássicos da mentalidade revolucionária no meio jurídico e que, aparentemente, tiveram seus pontos de vista endossados pelo então desembargador Kassio Nunes, hoje integrante do Supremo Tribunal Federal.

A inocência da nascente direita brasileira com a guerra política e cultural
Mas enquanto a esquerda tem muito claro a importância de seus intelectuais para levar adiante seu projeto de poder, uma parcela da ainda nascente e desorganizada direita brasileira tem dado mostras cabais de completa ignorância em termos de guerra política, ao cometer o erro colossal de ignorar e até mesmo desprezar os poucos intelectuais brasileiros do campo conservador.

Como o Brasil viveu a particularidade, aparentemente única no mundo, de ver a direita chegar ao poder político nominal sem ter organização política e tendo apenas arranhado a hegemonia cultural esquerdista, uma parte mais ingênua da direita passou a considerar descartáveis os poucos agentes da direita conservadora que fizeram esta quebra de hegemonia. A mesma quebra de hegemonia que abriu o caminho para a chegada da direita ao poder.

Com poucas exceções, lideranças políticas e ativistas de parte da direita nacional parecem acreditar piamente que o enfrentamento ao establishment político, ao aparelhamento e controle que a esquerda faz das instituições de Estado, do sistema jurídico e educacional e dos meios de comunicação e de produção de cultura poderá ser feito exclusivamente por meio do voluntarismo espontâneo do ativismo de rua e da atuação nas bolhas das redes sociais na internet.

Esse voluntarismo, que é um conceito caro e muito bem trabalhado na esquerda e que ela condena de modo veemente entre os seus, leva uma parcela da direita a acreditar que ela pode prescindir da contribuição dos poucos intelectuais conservadores existentes e até mesmo prescindir de qualquer forma de conhecimento político mais aprofundado para guiar sua atuação.

O resultado desta conduta, que temos observado em período recente, é que parte da direita passou a atuar guiando-se por um empirismo onde a projeção de cenários futuros é substituída pela torcida, o embate político mais aprofundado é substituído pelo meme, e a preocupação em conhecer os métodos e as estratégias do inimigo visando antecipar suas ações simplesmente inexiste.

As discussões sobre os rumos do Governo Bolsonaro, discussões estas que são imprescindíveis até mesmo para qualificar o apoio a ser dado ao governo e distinguir este apoio militante daquele apoio recebido pelo presidente por parte das pessoas comuns,  ficam bloqueadas sob o argumento ingênuo e tolo de que tais discussões “dividem a direita”, ou são rechaçadas sob argumentos pueris emotivos e pré-políticos, como sugerir ao proponente de qualquer discussão que “saia candidato e faça melhor”.

Em meio a esse comportamento quase que de transe mental político, as preocupações com a guerra cultural, campo onde o governo tem perdido todas as batalhas mais importantes nas áreas de educação e cultura, simplesmente deixaram de existir, como se tal guerra tivesse cessado e houvesse sido declarado um armistício imaginário desde o primeiro dia do Governo Bolsonaro.

Quando lembra-se que figuras da esquerda do meio artístico e cultural que participaram da campanha do #EleNao ocupam posições-chave na máquina do governo, estes mesmos ativistas voluntaristas argumentam que se assim não for existe o risco de impeachment, ou então que se trata de uma imaginária estratégia de dimensões ênuplas, que seria a tradução tosca de um dos ensinamentos da arte da guerra de Sun Tzu.

É evidente que este estado de absoluta pobreza, que na verdade é uma ausência, do debate político reinante em parcela expressiva da direita brasileira é consequência direta de um voluntarismo político e de uma mentalidade hostil e avessa a toda forma de conhecimento. Mentalidade esta que passou a caracterizar o brasileiro médio nas últimas décadas, como observa o professor Olavo de Carvalho.

A direita não pode pretender vencer os embates políticos e a disputa efetiva de poder no longo prazo ignorando a história do movimento revolucionário, seus métodos e estratégias de ação. Também não pode pretender ignorar seus próprios erros e limitações, inclusive os erros que esta própria direita cometeu e vem cometendo ao longo dos dois anos do Governo Bolsonaro.

Por exemplo, o erro de não sido formado um partido político genuinamente de direita ao longo deste período e, por consequência, a ausência total de estratégia política para as últimas eleições municipais, que levou a uma derrota dos conservadores e ao fortalecimento do establishment político por meio da vitória de seus candidatos na principais cidades.

Promover tais discussões não significa “dividir a direita” e muito menos enfraquecer ou “atacar” o Governo Bolsonaro, e somente uma mentalidade muito ingênua, ou motivações e interesses escusos, pode enxergar as coisas desse modo. A direita, em especial os conservadores, precisa começar a valorizar e ouvir seus intelectuais para dar efetividade à sua atuação política e para instrumentaliza-se para a guerra cultural no longo prazo.

A direita precisa reconhecer, até por questão de justiça, o papel inigualável e sem paralelo desempenhado pelo professor Olavo de Carvalho que, mesmo nunca tendo tomado para si o papel de líder de movimento político, é a figura-chave do campo conservador brasileiro que promoveu uma mudança na face da guerra cultural nas últimas décadas, dando início à quebra da hegemonia da esquerda.

É inegável que esta mudança e quebra de hegemonia promovidas pelo professor Olavo de Carvalho e alguns de seus alunos ensejaram e serviram de estopim e de ponta de lança para o movimento político de massas que desaguou na vitória eleitoral da direita com Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais.

No entanto, a contribuição que intelectuais como o professor Olavo de Carvalho já deu e pode dar vai muito além de seus desdobramentos eleitorais diretos ou indiretos, e insere-se nos novos desafios que a direita precisa enfrentar, até mesmo por ser governo. Portanto, a direita não pode cometer o suicídio de achar que ela pode, agora, simplesmente prescindir da continuidade desta contribuição. Agradecimento a Tatiana Carvalho, cujas questões levantadas em algumas discussões suscitaram a produção deste artigo.


 

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