por paulo eneas
A eleição do deputado Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara dos Deputados constitui-se em uma vitória no contexto da estratégia adotada pelo Governo Federal de ao menos neutralizar a hostilidade e a sabotagem contra a agenda governista por parte establishment político, representado justamente pelo próprio centrão e pelos partidos de esquerda, no parlamento nacional.

Esta estratégia obviamente está longe de constituir-se no cenário desejável que era esperado pela esmagadora maioria dos apoiadores do governo. Este cenário desejável teria o nome de um parlamentar como Bia Kicis, Luiz Philippe Orleans, Daniel Silveira entre outros conservadores-raiz como candidato governista para disputa da chefia do parlamento.

Este cenário desejável não existe e não existiu por várias razões, sendo a principal delas o próprio sistema partidário eleitoral brasileiro. Este sistema que faz com que a cada eleição as chances reais de renovação do parlamento sejam mínimas, uma vez que as máquinas partidárias controlam e determinam quem e quais serão os candidatos a serem apresentados ao eleitor.

Deste modo, o nosso sistema eleitoral e partidário funciona não para possibilitar que a cada eleição a população possa de fato escolher livremente seus representantes. Ao contrário, o sistema funciona para fazer com que a cada eleição a população limite-se a legitimar pelo voto a continuidade do establishment político, representado por candidatos previamente escolhidos pelas máquinas partidárias.

Isto explica, por exemplo, por que nas eleições de 2018 tivemos a vitória de um candidato anti-establishment para a Presidência da República, Jair Bolsonaro, e ao mesmo tempo tempo tenhamos assistido a recondução ao parlamento de praticamente a mesma política que o ocupa já há décadas.

Neste sentido, o sistema partidário-eleitoral brasileiro constitui-se, ao lado do ativismo do poder judiciário, as duas grandes muralhas erguidas contra o projeto conservador e de direita representado pela eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República.

E foi no contexto desta muralha, que o governo entrou em cena nas disputa pelas mesas diretoras legislativas, tendo que fazer sua escolha dentre as opções oferecidas pelo establishment político.

Arthur Lira e as pautas governistas
Os governistas mais afoitos têm repetido que Arthur Lira seria “alinhado com as pautas do governo”. Essa afirmação é equivocada, segundo apuramos. Arthur Lira não é conservador ou de direita, e nunca apresentou-se como tal, de modo que não faz sentido esperar ou exigir dele alinhamento com pautas conservadoras.

Líder político do Centrão, o deputado alagoano eleito presidente da Câmara dos Deputados surgiu como alternativa dentro establishment político em oposição à delinquência política e chantagista representada pelos dois anos de Rodrigo Maia. Delinquência esta que teria continuidade com Baleia Rossi, candidato de Rodrigo Maia e das esquerdas à chefia da Câmara dos Deputados.

Esta delinquência materializava-se pelo boicote permanente que Rodrigo Maia fez durante dois anos não apenas ao governo, mas ao próprio Congresso Nacional, ao usar sua prerrogativa de presidente da mesa da Câmara para recusar-se a colocar em votação projetos e medidas provisórias editadas pelo governo.

Rodrigo Maia agiu durante dois anos como chantagista político e sabotador do próprio poder legislativo e do executivo, ao impedir que o Congresso Nacional desempenhasse  uma de suas funções precípuas que é a de apreciar e votar propostas apresentada pelo governo e por parlamentares da base governista.

Arthur Lira comprometeu-se a romper esse ciclo de paralisia chantagista, e fazer simplesmente aquilo que é obrigação do presidente da Câmara dos Deputados: colocar as matérias em votação. Foi em cima deste compromisso, e não necessariamente o endosso ou adesão às propostas governistas, que Arthur Lira recebeu o apoio do governo.

Se Arthur Lira cumprir este compromisso, não apenas com o governo, mas com a própria Câmara dos Deputados, e permitir que o parlamento funcione dentro da normalidade apreciando e votando as propostas do governo, a estratégia que levou o líder do centrão à presidência da Câmara terá sido bem sucedida.

A expectativa realista que cabe haver não é esperar um “alinhamento de Arthur Lira com as pautas do governo”, mas sim o encerramento do ciclo de bloqueio da atividade parlamentar e de hostilidade ao governo criado pela delinquência política de Rodrigo Maia, vulgo Botafogo na lista de propinas da Odebrecht.