por paulo eneas
(atualizado às 17h45m)

Um artigo trazendo uma meta-análise sobre uso da hidroxicloroquina para o tratamento da covid foi publicado no mês de abril na Revista Nature, a mais prestigiada revista científica do mundo. O artigo Mortality Outcomes With Hydroxychloroquine and Chloroquine in COVID-19 From an International Collaborative Meta-analysis of Randomized Trials conclui que ambas as substâncias não servem para o tratamento da covid-19. Além disso, no caso da cloroquina, seu uso acarretaria aumento da mortalidade.

Esta meta-análise vem sendo usada como principal evidência por parte do segmento formado por médicos, jornalistas e mesmo políticos que condena o tratamento precoce da covid, e que insiste que a única abordagem possível para enfrentamento da pandemia seria o isolamento social e a imunização em massa com vacinas experimentais.

Ocorre que, conforme mostra o Dr. Ramatis de Oliveira, professor e pesquisador no Curso de Medicina Univates (RS), em vídeo publicado ainda em abril, a meta-análise possui um problema alguns problemas de métodos que introduz um viés nas suas conclusões no que diz respeito ao uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com covid.

Uma meta-análise consiste na aplicação de um modelo estatístico a um conjunto de artigos científicos com o objetivo de se obter aquilo que poderia ser chamado, por abuso de linguagem, de consenso científico em torno de determinado tema. Ao selecionar os artigos, os autores de uma meta-análise atribuem um peso estatístico diferente a cada artigo selecionado, segundo critérios que precisam ser apresentados e justificados na própria meta-análise.

No caso da meta-análise publicada na Revista Nature, selecionaram-se 26 artigos, para os quais foram atribuídos pesos estatísticos distintos. Para a maioria destes artigos atribuiu-se peso estatístico em torno de 1% (um por cento) ou menos, sendo que alguns tiveram peso estatístico igual a zero. Um artigo em particular teve peso de 15%. Um artigo em especial teve peso estatístico de 74% e foi, portanto, decisivo para as conclusões tiradas desta meta-análise.

Este artigo de peso estatístico igual a 74% usado na meta-análise consistiu por sua vez num estudo publicado no The New England Journal of Medicine. Este estudo foi realizado em Manaus no ano passado e analisou o efeito da cloroquina em pacientes de covid hospitalizados, ou seja, em pessoas que se encontra em estágio avançado da evolução da doença.

O Estudo de Manaus, como ficou conhecido do grande público, empregou doses elevadíssimas de cloroquina, o que resultou na morte de onze pacientes, conforme o Crítica Nacional mostrou na reportagem Manaus: Fiocruz Conduz Estudo de Suspeita Criminosa Para Desacreditar Cloroquina, publicada em abril do ano passado. Foi a este estudo, publicado posteriormente no The New England Journal of Medicine, que atribuiu-se o peso estatístico de 74% na meta-análise publicada pela Revista Nature.

Ocorre que a meta-análise estuda o uso da cloroquina e a hidroxicloroquina no estágio avançado da covid-19, quando o paciente já se encontra hospitalizado. Neste estágio, efeito antiviral da cloroquina ou da hidroxicloroquina ou de qualquer antiviral é menos mais efetivo, uma vez que a doença avançou para a etapa inflamatória.

Portanto, a meta-análise apresentada na Revista Nature não serve para invalidar o uso profilático ou precoce (anterior, portanto, à hospitalização) da hidroxicloroquina ou da cloroquina para tratamento da covid-19, pois o artigo em que ela baseou-se esteve voltado para o uso hospitalar em altas doses.

Toda a discussão médico científica em torno do uso destas substâncias em pacientes com covid sempre esteve circunscrita principalmente a seus efeitos profiláticos ou no estágio inicial da doença. Por outro lado, a  conclusão da meta-análise da Revista Nature diz a respeito ao uso tardio da cloroquina ou hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados.

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