por paulo eneas
O lockdown, ou quarentena horizontal como foi chamado no início, foi apresentado ao público brasileiro no começo da pandemia do vírus chinês como sendo uma medida excepcional e transitória, destinada a capacitar o sistema de saúde a receber um esperado aumento de demanda de doentes devido à própria pandemia.

A justificativa apresentada à época falava na necessidade de um “achatamento de curva” de demanda em relação à curva da capacidade de atendimento do sistema de saúde. A ideia apresentada parecia razoável: à medida que o vírus se espalhasse, a curva de demanda de atendimento médico (linha vermelha no gráfico abaixo) iria crescer de maneira quase exponencial no tempo.

Por sua vez, a curva de capacidade do sistema de saúde (linha azul) permaneceria constante, representando a totalidade instalada dos serviços de atendimento de saúde. O lockdown, ou quarentena horizontal, iria então promover uma redução do contágio do vírus, de modo que a demanda inicial crescente iria ser achatada (linha verde) sem ultrapassar o limite de capacidade de atendimento da rede hospitalar.

Inúmeros vídeos na internet e até mesmo na grande imprensa explicavam esse modelo, dando a ele uma aparente razoabilidade. O próprio Ministro da Saúde de então, Luiz Henrique Mandetta, chegou a afirmar que o “coronavírus é um vírus que ataca o sistema de saúde”, que precisaria ser defendido por meio de medidas de contenção do contágio, via quarentenas, até que o sistema fosse ampliado e capacitado a receber um maior número de pessoas doentes.

Hospitais de campanhas foram abertos em várias cidades ao custo de milhões e milhões de reais do contribuinte, e em muitos casos com suspeitas de superfaturamento, seguindo esta lógica: adoção de quarentenas temporárias e revigoramento e ampliação emergencial da rede de serviços de saúde. Compras públicas foram feitas sem necessidade de licitação, amparadas na retaguarda legal do estado de emergência.

Um castelo de cartas 
Passados alguns meses, verificou-se que tudo não passou de castelo de cartas. Hospitais de campanha foram inexplicavelmente fechados. As quarentenas horizontais, que passaram a ser chamadas eufemisticamente de medidas de restrição, deixaram de ser medidas excepcionais transitórias (que seriam válidas até que o sistema de saúde estivesse ampliado) para transformarem-se magicamente em suposta profilaxia.

Nunca mais se falou em “achatamento de curva” e os proponentes do modelo nunca vieram a público dar explicações, inclusive o agora ex-ministro Mandetta. Governadores e prefeitos, amparados pela Lei Federal 13.979, a lei do coronavírus, e por decisões do poder judiciário, continuaram a oferecer mais do mesmo à população: restrições e mais restrições a direitos civis, enquanto a pandemia se alastrava.

De medida transitória destinada a outra finalidade, os lockdowns e fechamentos passaram a ser medidas permanentes ao longo de toda pandemia. Medidas para as quais nunca foram exibidas as justificativas com base na ciência da epidemiologia, mas que produziram um efeito devastador na economia e, segundo muitos médicos, contribuíram para a disseminação do próprio vírus.

Da teoria não comprovada do achatamento de curva aos lockdowns permanentes sem justificativa científica plausível e a demonização do direito aa tratamento médico das pessoas que contraem o coronavírus, o brasileiro assiste há quase um ano e meio uma sucessão de erros e arbitrariedades de governadores e prefeitos que são, em última instância, os principais responsáveis pelo mais de meio milhão de vidas perdidas nesta pandemia.


 

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