por paulo eneas
Duas afirmações feitas pelo professor de educação física, e que também é epidemiologista, Pedro Hallal, ex-reitor Universidade Federal de Pelotas, em seu depoimento nesta quinta-feira (24/06) na CPI da Covid do Senado Federal precisam ser contestadas. Em um dado momento o depoente afirmou que “uma de cada três pessoas que morreram de Covid no mundo foi do Brasil”.

A afirmação de Pedro Hallal não encontra amparo nos dados disponíveis sobre mortes por Covid-19 no Brasil e no mundo. Uma consulta ao wordometers.info, que é uma das principais referências mundiais de dados sobre a pandemia do vírus chinês mostra que, em termos absolutos, o Brasil ocupa a terceira posição mundial em número de óbitos por Covid-19 conforme mostrado abaixo:

1o – Mundo: 3.916.013
2o – Estados Unidos: 618.321
3o – Brasil: 507.240

Portanto, o correto é afirmar que 1 (uma) em cada 8 (oito) mortes por Covid-19 no mundo ocorreram no Brasil, e não uma em cada três, como afirmou o professor de educação física, que também é epidemiologista. A proporção de 1 para 8 foi obtida arredondando-se para cima o valor de 7.7 que corresponde a proporção entre o número de óbitos do mundo todo e do Brasil.

A segunda afirmação feita por Pedro Hallal envolveu a exibição de gráficos que misturavam dados de mortalidade por Covid-19 com dados sobre a votação no segundo turno da última eleição presidencial. Pedro Hallal mostrou que as cidades onde o então candidato Jair Bolsonaro foi mais votado exibiam maior incidência de óbitos por Covid-19.

Já antecipando-se às críticas, Pedro Hallal afirmou que não havia relação alguma entre estes dois dados, como de fato não há, e em seguida fez a surpreendente afirmação de que “cada um pode interpretar estes dados como quiser”.

Ou seja, Pedro Hallal não ofereceu qualquer justificativa razoável para exibir os dados relacionando número de óbitos por Covid-19 e o mapa de votação do segundo turno da eleição presidencial. Não faz parte da conduta normal de um cientista exibir dois fatos distintos e dizer ao público que “cada um interprete como quiser”, quanto a possível relação entre estes fatos.

A postura usual de um cientista é exibir fatos distintos e sustentar uma hipótese de relação de causa e efeito entre estes fatos. Se essa relação não existe ou é de natureza espúria, no sentido estatístico do termo, não há razão alguma para um expositor exibir tais fatos e dizer ao público que “cada um interprete como quiser”. Isso não é fazer ciência, mas sim criar narrativa. E foi isso que Pedro Hallal fez.


 

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