por paulo eneas
A derrota da proposta de emenda constitucional instituindo o mecanismo de impressão do voto nas eleições revela a verdadeira natureza das relações do governo com o Centrão. Na votação ocorrida nesta terça-feira (10/08) no plenário da Câmara dos Deputados, apenas 16 dos 41 deputados do PP (Progressistas), o partido header do Centrão, votaram a favor da proposta de emenda constitucional.

O destino final da PEC do voto impresso confirmou o que o Crítica Nacional havia antecipado em vários artigos recentes e nas transmissões de nosso canal: o acordo do governo com o Centrão, que incluiu a ida do senador Ciro Nogueira (PP-PI) para a Casa Civil para ser o articulador político, nunca representou um compromisso da parte do bloco fisiologista em garantir a aprovação da proposta.

Pelo contrário, segundo nossas fontes têm nos informado há dias, figuras-chave do Centrão como presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), atuaram sobre as lideranças partidárias para votar contra o voto impresso.

Estes fatos objetivos e inegáveis mostram que a relação do governo com o Centrão não é de aliança em torno de pautas programáticas, mas uma relação claramente de chantagem, conforme apontamos no artigo O Centrão no Coração do Governo Bolsonaro & A Possibilidade do Voto Impresso: Uma Chantagem Sob a Camuflagem de Acordo, publicado no final de julho.

A mesma relação de chantagem da parte do Centrão contra o Presidente Bolsonaro evidenciou-se quando da votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias, que contém artigo elevando o valor do fundo eleitoral para quase seis bilhões de reais.

Na oportunidade, Arthur Lira atuou pessoalmente para exigir o aumento do fundão, usando como instrumento de pressão os pedidos de impeachment contra o Presidente Bolsonaro, como mostramos no artigo Necessidade de Aprovar LDO Não Justifica Votar A Favor de Uma Lei Que Aumentou Para R$5.7 Bilhões O Fundo Eleitoral.

Na sexta-feira anterior à votação da PEC do voto impresso, Arthur Lira emitiu um recado claro e inequívoco, ao anunciar por meio de outras palavras que a proposta de voto impresso seria “sepultada democraticamente” pela Câmara dos Deputados.

Arthur Lira foi além, e enfatizou que a a Câmara é formada por parlamentares que, no entender do deputado, foram eleitos legitimamente pelas urnas eletrônicas, conforme mostramos no artigo Tom do Pronunciamento de Arthur Lira Sugere Que Voto Impresso e Apuração Pública Serão Sepultados Democraticamente, publicado no mesmo dia.

Por fim, após a votação que sepultou a PEC do voto impresso na noite de ontem, Arthur Lira veio a público para dizer que o assunto estava encerrado, dando a entender que a missão havia sido cumprida e que não iria permitir qualquer discussão posterior sobre o sistema de votação adotado no país.

O que podemos concluir deste conjunto de fatos é que a relação do governo com o Centrão não é de aliança programática, como estamos afirmando insistentemente há várias semanas. Trata-se de uma relação de chantagem, em que o elemento de chantagem imposto pelo Centrão é a ameaça de impeachment do presidente.

Esta relação de chantagem poderá contemplar a aprovação de alguns itens de pauta econômica ou liberal aceitáveis para o Centrão, especialmente aquelas que não tenham grande apelo na opinião pública.

Mas qualquer proposta do programa de governo aprovado nas últimas eleições presidenciais que represente um arranhão sequer na estrutura de poder existente no país será firmemente combatida pelo bloco fisiológico que ocupa posições-chave no governo, e que manterá estas posições não em torno de um programa, mas de uma chantagem permanente contra o Presidente da República.


 

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