por paulo eneas
A direita criou e nutriu nos últimos anos a cultura da lacração e da mitada, surgida como novidade sob a forma de deboche sofisticado que ganhou adeptos entusiastas nas redes sociais, transformando a ironia e o sarcasmo nela contidos como armas preferenciais do discurso público da direita.

Com poucas exceções de ativistas e estudiosos mais preparados em áreas críticas da guerra política, como aquelas ligados aos movimentos pró-vida e ao direito de defesa, as lacrações e mitadas passaram a substituir até mesmo o embate político mais sério em torno de programas e propostas de políticas públicas.

O uso recorrente deste recurso serviu até mesmo para ocultar ou colocar em segundo plano aquela que é a maior deficiência da direita política brasileira: a ausência de organização partidária e a ausência de quadros dirigentes preparados e treinados em anos de experiência no embate político real na sociedade.

Assim, em vez de um discurso preparado e articulado para o embate político, especialmente na elaboração e refinamento de políticas públicas para um governo de direita, a direita nacional passou a valer-se das mitadas e lacrações, como se elas fossem em si auto-evidentes para seus propósitos.

Em vez de dirigentes políticos treinados nas diversas esferas de atuação política na sociedade, como movimento estudantil, sindicatos, máquinas partidárias, setores amplos do serviço público, principalmente nos setores da educação e do judiciário, a direita passou a ser “liderada” por youtubers e comunicadores com zero experiência política real em qualquer um destes setores.

Ocorre que a ironia como recurso expressivo contido nas lacrações e mitadas constitui-se tão somente numa caricatura de discurso. Um caricatura que é incapaz por si mesma de expressar e ecoar os problemas do mundo real vividos pelas pessoas de carne e osso. Acontece que é a capacidade, ou não, de tratar destes problemas reais na esfera da opinião pública que irá definir os vencedores e os perdedores da guerra política.

A esquerda sabe disso, e faz esta disputa política na opinião pública não por meio de discurso ideológico, que é reservado apenas para a formação da militância, mas por meio da apresentação de soluções simples e erradas para os problemas reais vividos pelas pessoas.

A direita, por sua vez, com poucas exceções, sequer se preocupa em oferecer soluções aos problemas reais que afligem o dia a dia a da população. Pelo contrário, ela comete a sandice de ignorá-los ou simplesmente abordá-los tangencialmente por meio do sarcasmo e ironia, valendo-se recursivamente das lacrações e mitadas que se tornaram a principal armadilha que prende a direita nacional numa bolha descolada da realidade.


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