por paulo eneas
Como havíamos antecipado, nada de excepcional ocorreu após as manifestações de sete de setembro. As maiores manifestações pacíficas e democráticas da história do país reduziram-se a um propósito pré-eleitoral, e inseriram-se na dinâmica que vem sendo seguida pelo próprio Jair Bolsonaro, cuja participação em inúmeras manifestações e motociatas em período recente, nenhuma delas centrada na defesa de qualquer pauta específica, o transformou em um pré-candidato em exercício do cargo.

As imagens e vídeos daquelas gigantescas manifestações do Dia da Independência Nacional, em que o fato histórico da independência e seus personagens mal foram lembrados, e aos quais o próprio presidente havia se referido como sendo uma “fotografia para mostrar ao mundo”, servirão basicamente como material de campanha para futuras candidaturas do campo bolsonarista.

Ou seja, milhões de pessoas foram espontaneamente às ruas apenas para serem figurantes de material publicitário eleitoral.

O desfecho do sete de setembro também correspondeu em parte ao que o Crítica Nacional havia antecipado: as relações de poder no país não mudaram no sentido que era esperado pelos manifestantes, pois os brasileiros continuarão votando em urnas eletrônicas sem voto impresso, o pleito continuará sendo decidido por apuração secreta, e não haverá impeachment de nenhum magistrado da suprema corte.

Os apoiadores do presidente que foram presos em período recente por conta de suas atividades e opiniões políticas, prisões estas que inúmeros juristas consideram de legalidade e constitucionalidade questionáveis, continuaram e continuam presos, ao menos até a presente data.

A imposição de restrições aos direitos civis e até mesmo do direito ao trabalho de pessoas não vacinadas contra o coronavírus, imposição esta ancorada na Lei Federal 13.979 sancionada pelo próprio presidente, continua a ocorrer no país inteiro, sem que o Governo Federal tome qualquer medida para impedir que isto ocorra.

A carta à Nação divulgada pelo presidente dois dias após as manifestações, carta esta elaborada pelo ex-vice-presidente da era petista, Michel Temer, que por sua vez afirmou ter redigido documento a quatro mãos juntamente com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, representou a formalização do recuo do Presidente Bolsonaro em relação ao ambiente político criado no entorno do dia sete de setembro.

Na carta, o presidente pede desculpas a membros de outros poderes, afirma que suas declarações no dia da manifestação representaram “o calor do momento”, deixa de lado as demandas por ele mesmo levantadas e que ensejaram a manifestação, como o voto impresso e a liberdade dos presos políticos, e passa então a adotar um discurso totalmente distinto.

Este recuo foi imediatamente repassado à base bolsonarista, por meio de briefings para determinados influenciadores bolsonaristas nas redes sociais, como sendo um suposto acordo envolvendo itens mirabolantes que supostamente indicariam a “vitória” do Presidente Bolsonaro em meio à crise institucional nas relações entre os poderes.

Como todos os briefings oficiais recentes, essa narrativa do acordo não passou de uma narrativa, que não encontra amparo algum na realidade. Pois dezenove dias após as manifestações, o status-quo anterior não apenas continuou a prevalecer, como houve sim uma mudança nas relações de poder: legislativo e judiciário saíram fortalecidos na opinião pública, e o executivo saiu enfraquecido, tendo sofrido reveses em decisões judiciais recentes.

Os links mais abaixo trazem a cobertura da manifestação feita pelo Crítica Nacional, que produziu matérias em inglês sobre os atos em Brasília e na Avenida Paulista, em São Paulo (SP).


 

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