por paulo eneas
O candidato da esquerda marxista Gabriel Boric venceu o segundo turno das eleições presidenciais do Chile realizadas neste domingo (19/12). Com 99% das urnas apuradas, o esquerdista havia amealhado 55% dos votos válidos, enquanto o candidato da direita, José Antonio Kast, havia recebido 44% dos sufrágios válidos.

A vitória do candidato da extrema esquerda foi celebrada no Brasil em um encontro ocorrido também neste domingo entre o chefe petista Lula e o tucano Geraldo Alckmin, cotado para ser candidato a vice-presidente numa possível chapa presidencial encabeçada pelo petista, que teve suas condenações na Lava Jato anuladas por decisão do Supremo Tribunal Federal.

O candidato da direita, José Antonio Kast, havia vencido o primeiro turno das eleições chilenas, e no segundo turno contou com o apoio de integrantes do atual governo de Sebastian Piñera. Em sua campanha, José Antonio Kast não endossou nem reconheceu os trabalhos em andamento da Assembleia Constituinte instalada em julho deste ano que terá prazo de um ano elaborar a nova constituição chilena.

Por sua vez, o candidato esquerdista vencedor, Gabriel Boric, não apenas endossou a nova constituinte, como contou com o apoio dos ex-presidentes Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, que formaram a aliança de esquerda denominada Concertación, que governou o Chile por cerca de vinte anos, desde o final do regime de Augusto Pinochet.

Gabriel Boric fez sua campanha baseada em pauta eminentemente ideológicas, como a defesa da legalização do assassinato de bebês, que o parlamento chileno reprovou há poucas semanas, conforme mostramos no artigo Parlamento do Chile Rejeita Proposta de Legalização do Assassinato de Bebês publicado neste início de dezembro.

Sua campanha também foi pautada pela defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo, pautas feministas, defesa de um Estado forte e combate ferrenho ao que o futuro presidente de extrema esquerda chama de neoliberalismo: “se o Chile foi o auge do neoliberalismo na América Latina, também será seu cemitério”, afirmou o ex-líder estudantil esquerdista alçado à presidência do país.

Erros de Sebastián Piñera pavimentaram a vitória da esquerda
O principal responsável pela vitória do esquerdista Gabriel Boric foi o presidente chileno Sebastián Piñera, que já havia governado o Chile anteriormente de 2010 a 2014, quando perdeu a sucessão para a esquerdista Michele Bachelet, voltando à presidência chilena em março de 2018.

A partir do segundo ano de seu segundo mandato, Sebastián Piñera assistiu a uma onda de violência criminosa esquerdista sem precedentes na história recente chilena. Estes atos incluíram saques, depredações, incêndios criminosos (inclusive em Igrejas), ataques a estações de metrô e outros crimes desta monta.

O Crítica Nacional retratou alguns destes episódios, na reportagem Chile: Violência & Saques Promovidos Pela Esquerda, publicada em novembro de 2019, e também na reportagem Chile Vive Nova Onda de Violência Criminosa Promovida Pela Esquerda, publicada em março de 2020.

Deve-se observar que estes atos criminosos ocorreram em um ambiente de relativa estabilidade econômica, pois o Chile sempre foi uma das economias mais prósperas da América Latina, a despeito dos impactos sofridos pela pandemia do vírus chinês.

O que ficou claro nestes episódios de violência criminosa praticados pela esquerda, e que teve entre seus líderes justamente o presidente esquerdista agora eleito, Gabriel Boric, é que se tratava unicamente de um embate político-ideológico levado a cabo pela esquerda. Um embate que Sebastián Piñera recusou-se a fazer.

Em vez disso, Sebastián Piñera cedeu a praticamente todas as demandas exigidas pela violência da esquerda, demandas estas que eram eminentemente políticas e ideológicas, e não a expressão de alguma demanda social. A principal destas demandas era a exigência de uma nova Constituição para o Chile.

Sebastián Piñera optou por dar à esquerda o que ela queria: uma assembleia constituinte foi convocada e instalada em julho deste ano. Totalmente controlada pela esquerda, a nova assembleia constituinte dará aos chilenos uma constituição de viés socialista até o julho do ano que vem. Além disso, maioria dos delinquentes esquerdistas que perpetraram as ações criminosas de 2019 e 2020 ficaram impunes, inclusive o agora presidente esquerdista eleito, Gabriel Boric.

Lições de guerra política
A principal lição de guerra política que pode ser aprendida e apreendida da vitória da esquerda nas eleições chilenas, não é o resultado eleitoral em si, mas aquilo que o antecedeu. Sebastián Piñera e seu entorno não compreenderam que, no que diz respeito ao enfrentamento ao movimento revolucionário, o embate não começa nem termina com uma vitória eleitoral circunstancial sobre a esquerda.

O que Sebastián Piñera não entendeu, e que toda a direita latino-americana precisa compreender, é que uma vez estando a direita no poder, ela precisa combater o movimento revolucionário de modo permanente, por meio do exercício pleno deste poder, sem fazer concessões, para neutralizar suas ações.

Pois a esquerda nunca cessa de buscar seus objetivos de poder após uma eventual derrota eleitoral. Pelo contrário, após a derrota ela se reagrupa, faz a auto crítica necessária para identificar onde errou, define novos métodos de ação, que não se restringem de modo algum a táticas eleitorais, visando retomar o poder por vias eleitorais ou não, na oportunidade seguinte.

Quando a direita, estando no poder, faz concessões às pautas da esquerda por pressão do politicamente correto e da opinião pública, acreditando com isso que irá aplacá-la, o efeito é justamente o contrário: estas concessões fortalecem ainda mais o movimento revolucionário, aumenta sua coesão para promover novos embates e exigir o atendimento de novas demandas.

Sebastián Piñera fez a mais inimaginável concessão que um governo de direita pode fazer: atender ao pedido da esquerda de convocar uma assembleia constituinte. Este gesto selou a derrota política definitiva de Piñera. Derrota esta que foi apenas confirmada no último domingo.

It is not the economy, stupid! It is the politics!
Outra lição que pode ser apreendida da vitória da extrema esquerda no Chile diz respeito à economia. É inegável que uma situação econômica ruim derruba governos. Porém, resultados econômicos satisfatórios não são de modo algum garantia de vitória. A prova disso é que a economia do Chile expandiu 17.1% no terceiro trimestre deste ano em comparação com o ano passado.

Para o ano de 2021, a projeção é de crescimento de 11% do PIB chileno. Um crescimento de padrão chinês! O desemprego no país no mês de setembro estava em 8.4%, apenas  dois pontos acima do que os economistas chamam de taxa desemprego de um ambiente de pleno emprego.

Portanto, pode-se afirmar que “It is not the economy, stupid! That is the politics!” Não foi a economia que derrotou a direita chilena. Foi a inabilidade de Sebastián Piñera em fazer o enfrentamento político e ideológico com a esquerda e neutralizar seus meios de ação que levou a este resultado.

Abstenções mantiveram-se na média
O voto não é obrigatório no Chile desde 2013. Com o fim da obrigatoriedade, houve uma aumento das abstenções desde então: em média, cerca da metade dos chilenos aptos a votar preferem não comparecer à urnas. As abstenções no segundo turno desde as eleições de 2013 têm sido as seguintes:

Eleições de 2013: Abstenção de 60%
Eleições de 2017: Abstenção de 51%
Eleições de 2021: Abstenção de 45%

Portanto, ao contrário do que está sendo afirmado por comentaristas brasileiros nas redes sociais, não faz sentido atribuir a vitória da esquerda às abstenções, pois elas foram as mais baixas nas três últimas eleições presidenciais chilenas, desde quando o voto passou a ser facultativo naquele país.

É importante enfatizar que não foi a economia, não foram as abstenções ou qualquer outro fator fora do alcance das ações do governo de centro-direita de Sebastián Piñera que levaram a direita à derrota.

Foram as concessões feitas à esquerda, que serviram apenas para fortalecê-la, a falta de capacidade ou de disposição do governo de reconhecer o inimigo e combatê-lo, a leniência com as ações criminosas desta mesma esquerda, que constituíram-se nas razões fundamentais para a derrota da direita. Fontes: Gazeta do Povo | BBC | CNN Brasil | UOL Economia | Revista Exame | Estadão | El País | El País Internacional.


Não Deixe o Crítica Nacional Acabar!

Crítica Nacional precisa e muito do apoio de seus leitores para continuar. Dependemos unicamente do financiamento do nosso público leitor, por meio de doações e assinaturas de apoio, para tocar adiante nosso projeto.

Crítica Nacional é hoje um dos poucos veículos da chamada imprensa independente que mantém-se fiel ao compromisso com a verdade dos fatos e a defesa de valores conservadores. Dentre os demais, muitos renderam-se ao chapa-branquismo desbravado, lançando mão até mesmo da divulgação de conteúdos falsos ou enganosos para esse intento. Esse tipo de conduta você jamais irá ver no Crítica Nacional.

Estamos nesse momento apelando encarecidamente ao nosso público para que contribua conosco. Você poderá fazer esta contribuição acessando este link aqui, onde terá a opção de fazer uma assinatura de apoio a um valor mensal irrisório e bastante acessível, e poderá também fazer uma doação no valor que desejar.

Muito obrigado.


 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE